terça-feira, 23 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Resumo dos Leilões da ANP

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

AGRICULTURA FAMILIAR

CONCEITUAÇÃO DE AGRICULTURA FAMILIAR UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Sonia Terezinha Juliatto Tinoco


1. Definições

Segundo GONÇALVES e SOUZA (2005), na legislação brasileira, a definição de propriedade familiar consta no inciso II do artigo 4º do Estatuto da Terra, estabelecido pela Lei nº 4.504 de 30 de novembro de 1964, com a seguinte redação: “propriedade familiar : o imóvel que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalhado com a ajuda de terceiros” e na definição da área máxima, a lei nº 8629, de 25 de fevereiro de 1993, estabelece como pequena os imóveis rurais com até 4 módulos fiscais e, como média propriedade, aqueles entre 4 e 15 módulos fiscais.

O programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF enquadra os produtores rurais como beneficiários de linhas de crédito rural quando atendem aos seguintes requisitos: sejam proprietários, posseiros, arrendatários, parceiros ou concessionários da Reforma Agrária; residam na propriedade ou em local próximo; detenham, sob qualquer forma, no máximo 4 (quatro) módulos fiscais de terra, quantificados conforme a legislação em vigor, ou no máximo 6 (seis) módulos quando tratar-se de pecuarista familiar; com 80% da renda bruta anual familiar advinda da exploração agropecuária ou não agropecuária do estabelecimento e mantenham até 2 (dois) empregados permanentes – sendo admitida a ajuda eventual de terceiros.

BITTENCOURT e BIANCHINI (1996), em um estudo feito na região sul do Brasil adotam a seguinte definição “Agricultor familiar é todo aquele (a) agricultor (a) que tem na agricultura sua principal fonte de renda (+ 80%) e que a base da força de trabalho utilizada no estabelecimento seja desenvolvida por membros da família. É permitido o emprego de terceiros temporariamente, quando a atividade agrícola assim necessitar. Em caso de contratação de força de trabalho permanente externo à família, a mão-de-obra familiar deve ser igual ou superior a 75% do total utilizado no estabelecimento.”

CARMO (1999), abordando o perfil da agricultura brasileira, se refere à agricultura familiar como forma de organização produtiva em que os critérios adotados para orientar as decisões relativas à exploração agrícola não se subordinam unicamente pelo ângulo da produção / rentabilidade econômica, mas leva em consideração também as necessidades e objetivos da família. Contrariando o modelo patronal, no qual há completa separação entre gestão e trabalho, no modelo familiar estes fatores estão intimamente relacionados.

GUANZIROLI e CARDIM (2000), definem como agricultores familiares aqueles que atendem às seguintes condições: a direção dos trabalhos no estabelecimento é exercida pelo produtor e família; a mão-de-obra familiar é superior ao trabalho contratado, a área da propriedade está dentro de um limite estabelecido para cada região do país (no caso da região sudeste, a área máxima por estabelecimento familiar foi de 384 ha).

Assim, a maioria das definições de agricultura familiar adotadas em trabalhos recentes sobre o tema, baseia-se na mão-de-obra utilizada, no tamanho da propriedade, na direção dos trabalhos e na renda gerada pela atividade agrícola. Em todas há um ponto em comum: ao mesmo tempo em que é proprietária dos meios de produção, a família assume o trabalho no estabelecimento.

2. Caracterização

BUAINAIM e ROMEIRO (2000), afirmam que a agricultura familiar desenvolve, em geral, sistemas complexos de produção, combinando várias culturas, criações animais e transformações primárias, tanto para o consumo da família como para o mercado. Baseados em amplo estudo sobre sistemas de produção familiares no Brasil, afirmam que os produtores familiares apresentam freqüentemente as seguintes características:

► “Diversificação”:Quanto maior a diversificação dos sistemas, menores os riscos a que os produtores se expõem, sendo que os autores verificaram essa diversificação na maior parte dos estabelecimentos familiares estudados

► “A Estratégia de Investimento Progressivo”: A maior parte das estratégias de “acumulação” e de aumento de produtividade dos agricultores familiares está baseada em pequenos volumes de capital, que podem ser acumulados de forma progressiva (cabeças de gado acumulados ao longo dos anos, equipamentos de irrigação adquiridos progressivamente, máquinas e implementos usados, etc).

► “A Combinação de Subsistemas Intensivos e Extensivos”: Os produtores familiares adotam em geral sistemas que conjugam atividades intensivas em trabalho e terra, com atividades mais extensivas. Quanto maior a disponibilidade de área, maior a participação de sistemas extensivos (cana, pecuária de corte, citricultura). Nestes casos, a prioridade do produtor é introduzir sistemas que garantam uma boa produtividade do trabalho, mesmo que com baixa rentabilidade por unidade de área. Ao contrário, quanto menor a disponibilidade de área, maior a importância relativa dos cultivos altamente exigentes em mão-de-obra e altamente intensivos no uso do solo (horticultura irrigada e fruticultura). Nessa situação, a estratégia é gerar a maior renda possível por ha, mesmo que a produtividade do trabalho das produções não seja das mais elevadas.

► “Uma Grande Capacidade de Adaptação” Os agricultores familiares tem grande capacidade de adaptação a ambientes em rápida transformação, seja devido à crise de produtos tradicionais, emergência de novos mercados e ou mudanças mais gerais da situação econômica do país. Outra característica cada vez mais presente na agricultura familiar brasileira é a ”pluriatividade”.

SCHNEIDER (2003), cita a seguinte definição do termo, feita por FULLER (1990): “A pluriatividade permite reconceituar a propriedade como uma unidade de produção e reprodução, não exclusivamente baseada em atividades agrícolas. As propriedades pluriativas são unidades que alocam o trabalho em diferentes atividades, além da agricultura familiar. [....] . A pluriatividade, portanto, refere-se a uma unidade produtiva multidimensional, onde se pratica a agricultura e outras atividades, tanto dentro como fora da propriedade, pelas quais são recebidos diferentes tipos de remuneração e receitas ( rendimentos, rendas em espécies e transferências)”. O autor afirma que na agricultura familiar, a combinação entre a mão-de-obra familiar agrícola e não-agrícola está relacionada à manutenção do estabelecimento agrícola assegurando sua reprodução socioeconômica. O trabalho agrícola e não-agrícola exercidos de forma complementar pelos membros da família que residem na propriedade, freqüentemente se deve à pouca disponibilidade de terra e às dificuldades de modernização tecnológica, o que compromete sua renda, obrigando essas pequenas unidades a buscar uma alternativa complementar de renda.

Mas não se trata somente da reprodução da família, pois segundo WANDERLEY (1995), o trabalho externo se torna, na maioria dos casos, uma necessidade estrutural, isto é, a renda obtida nesse tipo de trabalho vem a ser indispensável para a reprodução não só da família como do próprio estabelecimento familiar. Assim, o trabalho extra-agrícola, realizado por membros residentes no estabelecimento agrícola familiar, tem duas funções sociais: a primeira função é de complementar a renda da família e a segunda diz respeito à permanência dessas famílias no meio rural, ou seja, garantir a propriedade do bem rural.

Segundo SCHNEIDER (1999), além das estratégias de ocupar a mão-de-obra familiar em atividades agrícolas e não-agrícolas, os agricultores familiares freqüentemente conciliam a mão-de-obra familiar com a contratada (temporária ou permanente) nas atividades produtivas dentro das propriedades, quando há carência de mão-de-obra familiar, sendo que isso geralmente ocorre em casos como quando os filhos não estão em idade de participar das atividades agrícolas, a mão-de-obra familiar já perdeu seu potencial produtivo (predominância de idosos) e quando a propriedade pratica atividade produtiva altamente intensiva em mão-de-obra.

O mesmo autor afirma que a composição das estratégias da Agricultura Familiar depende de aspectos importantes que compõem o meio no qual os agricultores familiares estão inseridos. Assim, ao se definir a agricultura familiar contemporânea, deve-se levar em conta todas as formas que essa categoria social apresenta, seja ela baseada no trabalho familiar não-agrícola (pluriatividade) ou com a participação do trabalho assalariado, mas que a essência da mão-de-obra familiar (agrícola ou não-agrícola) seja preservada.

VEIGA et al. (2001) ressaltam a importância da presença da agricultura familiar no meio rural brasileiro, visto que uma região rural terá um futuro tanto mais dinâmico quanto maior for a capacidade de diversificação da economia local impulsionada pelas características de sua agricultura.

Ainda segundo os autores, as economias rurais mais dinâmicas são as que simultaneamente conseguem atrair consumidores de seus atributos territoriais e vender suas produções em mercados diferenciados. Já as economias especializadas em commodities agrícolas, podem até dar a impressão de grande dinamismo em sua fase inicial, quando sugam a renda diferencial propiciada pela exploração da fertilidade natural; só que depois dessa acumulação primitiva tudo passa a depender do grau de diversificação dos negócios criados no entorno dessa fonte primária.

OLIVEIRA (2000), evidenciou as vantagens da produção familiar como espaço ideal e privilegiado para consolidação de uma agricultura de base sustentável: “A lógica de funcionamento das explorações familiares, baseada na associação dos objetivos de produção, consumo e acumulação patrimonial, resulta num espaço de reprodução social cujas características de diversidade e integração de atividades produtivas vegetais e animais, ocupação de força de trabalho dos membros da família e controle decisório sobre todo o processo produtivo são sensivelmente mais vantajosos ao desenvolvimento de uma agricultura ambientalmente sustentável que as explorações capitalistas patronais”.

CARMO e SALLES (1998), discutem em seu trabalho, sobre a produção agropecuária em bases familiares e a evolução tecnológica apoiada no paradigma da sustentabilidade. Acreditam que as críticas que existiam a respeito da baixa adoção de tecnologias pelos produtores familiares, hoje têm sido revistas no sentido de que nem todas as propostas tecnológicas estão adaptadas às reais necessidades desses produtores.

Os mesmos autores afirmam que uma exploração familiar passa necessariamente pela família como elemento básico de gestão financeira e do trabalho total disponível internamente na unidade do conjunto familiar. As avaliações não podem ser simplesmente econômicas para entender as relações entre a organização interna da produção em bases familiares e o mundo externo, consubstanciado no processo de produção/reprodução/acumulação. Nesse sentido, as decisões sobre a renda líquida obtida com a venda da produção, fruto do trabalho da família, pouco tem a ver com a categoria lucro “puro” de uma empresa, representado pela diferença entre renda bruta e custo total.

Em estudo realizado através da Cooperação Técnica INCRA/FAO GUANZIROLI e CARDIM (2000), com base nos dados do Censo Agropecuário do IBGE de 1995/96, verificaram que quando se calculou a Renda Total por hectare, a agricultura familiar mostrava-se muito mais eficiente que a patronal, produzindo uma média de R$104,00/ha/ano contra apenas R$44,00/ha/ano dos agricultores patronais. Segundo os autores, essa constatação refere-se ao rendimento do fator terra, em cujo uso os agricultores familiares revelaram-se mais eficientes, utilizando uma proporção maior de sua área em sistemas intensivos, tentando aproveitar ao máximo sua área total, isso porque a terra é um fator limitante para ele, e por isso tem que intensificar seu uso. Os patronais, pelo contrário, têm terra abundante, e por este motivo a tendência é a utilização da melhor parte de sua terra com um sistema intensivo, no qual ele vai ter provavelmente maior eficiência técnica e vai destinar o restante da área a um sistema mais extensivo.

Quando a eficiência é medida em relação ao uso do fator trabalho, os patronais fazem um uso mais intensivo, já que esse é um fator escasso para essa categoria., e os familiares fazem um uso mais extensivo, já que possuem muita gente da família sub empregada , e precisam alocá-la nos trabalhos agrícolas.

VEIGA et al. (2001), informam que nos sete censos agropecuários realizados no Brasil desde 1950, a participação dos agricultores que têm menos de 100 hectares nunca se distanciou de 90% do total de estabelecimentos, e sempre lhes coube 20% da área, o que indica uma permanência extremamente duradoura desses produtores de pequeno porte por toda a segunda metade do século. Essa permanência no cenário agrícola, apesar dos constantes desafios, mostra que esse segmento está em constante mudança, compondo estratégias de sobrevivência e reprodução, as quais dependem do meio no qual os agricultores familiares estão inseridos.

Bibliografia

BUAINAIM, A. M.; ROMEIRO, A; A agricultura familiar no Brasil: agricultura familiar e sistemas de produção. Projeto: UTF/BRA/051/BRA. Março de 2000. 62p. Disponível em: http://www.incra.gov.br/fao

CARMO, R.B.A. A Questão Agrária e o Perfil da Agricultura Brasileira 1999 Disponível em http://www.cria.org.br/gip/gipaf/itens/pub/sober. Acesso em junho 2001.

CARMO, M.S.; SALLES, J.T.A. Sistemas familiares de produção agrícola e o desenvolvimento sustentado. In ׃ENCONTRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE SISTEMAS DE PRODUCÁO, 1998, Florianópolis. Anais. Disponivel em׃ <http://gipaf.cnptia.embrapa.br/itens/publ/sbs3/html>.

CASEIRO, A.; WAKATSUKI, A. C. Status da produção de peixes de água doce no Brasil. Revista Aqüicultura e Pesca, São Paulo, n. 2, jul-ag 2004.

GONÇALVES, J. S.; SOUZA, S. A. M. Agricultura familiar: limites do conceito e evolução do crédito. Artigos: políticas públicas. Instituto de Economia Agrícola Disponível em: <http://www.iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto=2521>. Acesso em 25 jul. 2005.

GUANZIROLI, C.; CARDIM, S. E. (Coord.). Novo Retrato da Agricultura Familiar: O Brasil redescoberto. Brasília: Projeto de Cooperação Técnica FAO/INCRA, fev/2000. 74 p. Disponível em: http://www.incra.gov.br/fao/pub3.html.

SCHNEIDER, S. Agricultura familiar e pluriatividade. 1999. 470p. Tese (Doutorado em Sociologia) – UFRGS, Porto Alegre, 1999.

SCHNEIDER, S. Teoria social, agricultura familiar e pluriatividad, Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 18, n.51, p. 99-121, 2003.

VEIGA, J. E. ; FAVARETO, A. ; AZEVEDO, C.M.A. ;BITTENCOURT, G. ; VECCHIATTI, K. ; MAGALHÃES, R. ; JORGE, R. O Brasil rural precisa de uma estratégia de desenvolvimento, Brasília: Convênio FIPE-IICA(MDA/CNDRS/NEAD), 2001. 108 p. Disponível em: http://www.nead.org.br/index.php?acao=bibliotecaepublicacaoID=112.

WANDERLEY, M.N.B. A agricultura familiar no Brasil: um espaço em construção. Reforma Agrária, Campinas, v.25, n. 2/3, p.37-47,1995.


* Parte da Tese “ANÁLISE SÓCIO-ECONÔMICA DA PISCICULTURA EM UNIDADES DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA FAMILIARES DA REGIÃO DE TUPÃ, SP”, apresentada pela Engenheira Agrônoma Sonia Terezinha Juliatto Tinoco, para obtenção do Título de Doutor em Aqüicultura, no Curso de Pós-Graduação em Aqüicultura do Centro de Aqüicultura da UNESP, Campus de Jaboticabal, em abril de 2006.

Origem: CATI - Dextru – Divisão de Extensão Rural - http://www.cati.sp.gov.br/

Sonia Terezinha Juliatto Tinoco é Eng. Agrônoma, Dra, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral - CATI - Dextru – Divisão de Extensão Rural
Contato: sonia@cati.sp.gov.br

Dados para citação bibliográfica(ABNT):
TINOCO, S.T.J. Conceituação de agricultura familiar: uma revisão bibliográfica. 2008. Artigo em Hypertexto. Disponível em: <http://www.infobibos.com/Artigos/2008_4/AgricFamiliar/index.htm>. Acesso em: 13/11/2008.


Fonte: Infobibos - Informações Tecnológicas

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Para a pureza do Biodiesel

Com a produção em alta, o biodiesel tem nos sistemas filtrantes um grande auxiliar para chegar ao padrão de pureza e qualidade

por Tiago Dias

A pesquisa em torno do biodiesel vem desde o início do século passado. De lá pra cá, foram muitos estudos para engendrar esta que é a opção de combustível biodegradável, derivado especialmente de fontes renováveis. Porém, o mercado de biodiesel começou a ser estruturado no Brasil somente em 2005, logo depois do lançamento do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel. Por esse motivo, alguns processos ainda estão em fase de adaptação e testes, seja na questão do abastecimento do veículo ou até mesmo no know-how de produção - como a utilização e o aumento da demanda dos filtros para obter o produto final puro e com qualidade.

O biodiesel substitui total ou parcialmente o óleo diesel de petróleo em motores ciclodiesel auto-motivos (caminhões, tratores, automóveis, entre outros) ou estacionários (geradores de eletricidade, calor etc.). Pode ser usado puro ou misturado ao diesel em diversas proporções. Por exemplo, se a mistura for de 2%, a solução passa a ser denominada de B2, e assim sucessivamente, até chegar ao biodiesel puro, conhecido como B100.

Segundo a ANP – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, desde 1° de janeiro de 2008, o óleo que for comercializado nos 35 mil revendedores de combustível de todo o Brasil deve conter, obrigatoriamente, 2% de biodiesel. A nova regra foi estabelecida pela resolução n°5 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), de 8 de outubro de 2007, com base no artigo 2°, da Lei n°11.097/2005.

Há dezenas de espécies vegetais no Brasil das quais se pode produzir o biodiesel, tais como mamona, algodão, dendê (palma), girassol, babaçu, amendoim, pinhão manso, soja, canola, nabo e forrajeiro. “Entre as gorduras animais, destacam-se o sebo bovino, o óleo de peixes e de mocotó, a banha de porco e a gordura de frango.

Os óleos e gorduras residuais, resultantes de processamento doméstico, comercial e industrial, também podem ser utilizados como matéria-prima na produção”, diz o Engenheiro Químico Max Monte Alverne Maia Neto, Consultor em Biocombustíveis e Oleoquímica e Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Biocombustíveis na UNISANTA, em Santos.

Algumas das possíveis fontes de óleos e gorduras residuais são lanchonetes e cozinhas industriais (onde há a fritura de produtos alimentícios), esgotos municipais (onde a nata sobrenadante é rica em matéria graxa) e nas águas residuais de processos de indústrias alimentícias. Tudo isso é reciclagem. Na Grande São Paulo, já há diversas campanhas para arrecadação desses tipos de óleos e gorduras, além de empresas como a Bioauto SP, do Grupo CIE Automotive, que coletam e reciclam o óleo de fritura, ajudando na prevenção do que pode vir a ser um grande problema ambiental, já que 1 litro de óleo de fritura pode contaminar até 1 milhão de litros de água. Com a norma do B2, a expectativa é que, segundo a associação, reduza-se a dependência externa do diesel de 7% para 5%, ou uma economia de US$ 410 milhões em divisas na balança comercial. Nos primeiros 6 meses de 2008, a produção foi de mais de 500 mil m³, contra os 402 mil m³ de todo o ano anterior. Desde 2005, a utilização do biodiesel no Brasil vem crescendo vertiginosamente. E, segundo os profissionais do segmento, vamos precisar de muito mais.


Produção

Há basicamente três tipos de processos diferentes para a produção do biodiesel: craqueamento, esterificação e transesterificação - o mais aplicado.

A seqüência tem início com a usina de biodiesel recebendo a matéria-prima na forma bruta ou já refinada. “Na forma bruta, a matéria-prima passa por um sistema de pré-tratamento para adequação da qualidade em termos de acidez, umidade, gomas, dentre outros parâmetros, para então ser encaminhada ao sistema de transesterificação, onde o óleo vegetal ou o sebo bovino são transformados em biodiesel, através da reação catalítica com metanol. Como co-produtos, são produzidos glicerina, ácido graxo, gomas, entre outros. A separação da glicerina do biodiesel, por exemplo, é feita através de decantadores. Já a matéria-prima refinada segue direto para o sistema de transesterificação, uma vez que já está adequada para a produção do biodiesel”, esclarece o Coordenador de Gestão da Produção da Petrobras Bio-combustível, Mauro Silva.

Segundo Max, a transesterificação é o processo mais utilizado atualmente para a produção de biodiesel. “O processo consiste numa reação química dos óleos vegetais ou gorduras de animais com o álcool comum, o etanol, ou o metanol, estimulada por um catalisador, da qual também se extrai a glicerina, produto com aplicações diversas na indústria química”, explica, fazendo um comparativo entre a quantidade de matéria-prima necessária: “Para se ter uma idéia, um quilo de óleo vegetal produz cerca de um litro de biodiesel”.

Veja acima diagrama simplificado do processo de produção do biodiesel. Os quadrados identificados com o ícone em verde significam as etapas onde são empregados filtros.

Pré-tratamento

Os filtros são peças importantes para a retirada de resíduos diversos, tanto da matéria-prima quanto do biodiesel como produto. Para toda essa necessidade, são utilizados diversos tipos de filtros, levando sempre em consideração o tipo do processo, da matéria-prima e do produto final. A necessidade ocorre inicialmente na extração de óleos vegetais, com o filtro prensa para reter sólidos provenientes do processo de prensagem de grãos, assim como na entrada do sistema de pré-tratamento das matérias-primas brutas para retirada de sólidos em suspensão (cascas e fibras). “São utilizados filtros de placas e, como meio filtrante, a terra diatomácea e sílica. São aplicados também filtros para retirada de traços de terra diatomácea, que por ventura passem no processo”, explica Mauro.

Ocorre também no final do sistema de pré-tratamento a instalação de filtros de polimento do óleo tratado, antes de encaminhá-lo para o sistema de transesterificação. “Na etapa de preparação da matéria-prima, utiliza-se filtros pressurizados com placas verticais ou filtros de velas para retenção de sílica no processo de adsorção de sabões, metais e fosfatídeos resultantes do refino do óleo vegetal”, detalha Max. Segundo o Engenheiro Químico, algumas matérias-primas contêm ceras e outros componentes insaponificáveis, que devem ser retirados do óleo vegetal. “Para tal, utiliza-se um processo de resfriamento do óleo, cristalização das ceras e posterior filtragem em filtros resfriados pressurizados horizontais”, explica.

Excesso de água

Os óleos utilizados na base do biodiesel são higroscópicos por natureza, ou seja, facilmente absorvem e retêm umidade. Sendo assim, deve ser realizado um controle rigoroso da quantidade de água presente. A solução deste problema é bastante simples: os filtros separadores com mídia composta, tipo Hydrocarbon, têm se mostrado bastante eficientes na redução da quantidade de água aos valores estabelecidos por norma.

Por sua vez, o biodiesel é muito mais higroscópico que o próprio óleo diesel. A presença de água no combustível trará, além de perda de potência (o PCI - poder calorífico - será afetado), danos ao sistema de injeção. Sérgio Monteiro, Gerente Geral da Parker Divisão Filtração, conta que é por conta disso que o Filtro Separador de Água, já presente em todos os caminhões, passa a ter papel fundamental. “A separação da água do biodiesel, assim como no óleo diesel, ocorre por coalescência”, diz Sérgio.

Remoção de sólidos

Na etapa de purificação dos ésteres, alguns processos utilizam a lavagem a seco, que é realizada com a adição de produtos adsorventes ao biodiesel, para remoção de contaminantes, tais como sais, metais, glicerina residual, sabões oriundos da reação do processo de transesterificação. Por sua vez, os produtos adsorventes são removidos através de filtros bolsa em pequena escala, e filtros pressurizados ou filtro de tambor rotativo a vácuo em larga escala. “Os filtros bolsa filtram os óleos vegetais, glicerina e ácidos graxos. É um processo de segurança, quase sempre fornecidos na configuração duplex.

Removem também traços de auxiliares filtrantes não retidos nos filtros de placas”, diz Maurício Biral, da Engenharia de aplicações da Tech Filter.

O Engenheiro Alex Peixoto, da Assistência Técnica da Hydac, explica que além da remoção de sólidos, há ainda a possibilidade de absorção de água livre em certos casos. “Os elementos filtrantes Hydac Betamicron® 4 são compatíveis com alguns tipos de biocombustíveis, podendo ser aplicados sem restrição e com excelente desempenho quando comparados os resultados obtidos com o volume filtrado. Eles poderiam ser utilizados em etapas de filtração mais apuradas na remoção de resíduos sólidos, ainda presentes no processo produtivo do fluido”, esclarece.

Polimento e purificação

Terminado o processo de produção e purificação, o biodiesel passa pelo polimento final onde são aplicados os filtros cartucho, antes da estocagem. “Com a finalidade de polir o biodiesel, o filtro cartucho é utilizado após o filtro bolsa ou até substituindo o mesmo”, explica Maurício.

Nesta etapa, filtros coalescentes também podem ser instalados para remoção de traços de água, e filtros de placas com sílica e terra diatomácea para a purificação final do biodiesel.

No processo de recuperação e destilação da glicerina, filtros prensa e de outros tipos são aplicados para a retenção de sais e catalisador oriundos da reação de transesterificação. Após a destilação da glicerina, são utilizados filtros com carvão ativado para branqueamento final da glicerina.

Além dos filtros citados, ao longo de todo o processo são instalados filtros cesto para proteção de bombas e equipamentos. “Os filtros cesto, em tela metálica, são frequentes neste tipo de aplicação. A MAHLE está preparada para atender o mercado com filtros cesto simples e duplex, e com elementos inovadores no mercado que podem utilizar mais de uma parede filtrante e assim aumentar a vazão atendida, sem precisar aumentar o tamanho de carcaça ou até mesmo o número de filtros”, explica Cristobal Lopez Guerra, da Chefia de Engenharia de Aplicação da MAHLE Filtroil. “A empresa tem investido grandes somas na pesquisa de soluções para a separação de óleos e água, com resultados expressivos e com a expectativa de fornecer soluções inovadoras ao mercado de biocombustíveis”, conta.

Na retenção de partículas, pode-se aplicar também os filtros autolimpantes. “A cada dia nossos filtros autolimpantes, concebidos como sistemas à prova de explosão, estão conseguindo reter partículas cada vez menores e, com a vida útil elastecida dos elementos filtrantes e a confiabilidade na automação do sistema, encontrando cada vez mais espaço em diversas etapas da produção dos biocombustíveis”, diz Cristobal.

“Finalmente, no que se refere às utilidades de processos industriais, como vapor, ar comprimido, água de caldeiras, água de processo, tratamento de efluentes, nitrogênio para inertização etc, são amplamente utilizados filtros de diversos tipos como já é de conhecimento geral da área industrial”, comenta Max. Com relação ao reúso de água, os sistemas de água de resfriamento e água gelada são em circuito fechado. “O sistema de geração de vapor possui sistema de recuperação de condensado, minimizando o consumo de água”, esclarece Mauro, da Petrobras.

As usinas de biodiesel têm uma Estação de Tratamento de Efluentes para as águas oleosas e demais efluentes líquidos.

Teste de filtros

Os combustíveis em geral, o biodiesel em particular, estão sujeitos à contaminação pelo meio ambiente e manuseio - durante o transporte, transbordo e estocagem -, já que a umidade presente no ar passa a ser uma séria ameaça à qualidade do biodiesel. Para evitar essa contaminação e, consequentemente, a perda de performance do motor, Sérgio Monteiro, da Parker, explica que é necessária atenção nos postos de abastecimento. “O certo seria que cada posto tivesse um filtro desumidificador, instalado no respiro do tanque. Na verdade, isso deveria acontecer em todas as bombas de combustível”.

Além disso, Sérgio comenta sobre as etapas de manuseio, que contaminam com particulado sólido. “A aplicação dos filtros separadores de água com mídia composta, tipo Hydrocarbon, também tem se mostrado bastante eficiente na redução do particulado sólido e da água, que se agregaram ao combustível nas saídas dos tanques de armazenamento, no momento em que o biodiesel é transferido do tanque da refinaria para o caminhão”, detalha.

Adicionalmente, a Parker e o LADETEL, Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas da USP de Ribeirão Preto, firmaram acordo de cooperação, com objetivo de avaliar o desempenho dos filtros coalescentes separadores de água para os diversos tipos de biodiesel existentes no mercado.

Um nicho que só cresce
Além da diminuição da poluição atmosférica, por ser uma energia renovável, o biodiesel é considerado ótimo lubrificante, podendo inclusive aumentar a vida útil do motor, e ainda apresenta baixo risco de explosão. “O biodiesel puro diminui as emissões de monóxido de carbono (CO) em 48%; as de óxido de enxofre (SOx), causadores da chuva ácida, em 100%, e fumaça preta (material particulado que causa problemas respiratórios) em 47%. A viabilidade do uso direto foi comprovada na avaliação dos componentes do motor, que não apresentou qualquer tipo de resíduo que comprometesse o desempenho”, esclarece Max.

Com todas essas vantagens, aliadas ao conseqüente desenvolvimento agrário de quem produz as matérias-primas, o mercado de biodiesel é um grande expoente e ainda tem muito espaço para crescer – aumentando as exportações como aditivo de baixo conteúdo de enxofre e influenciando na participação de outros segmentos, como o de filtros. “Ainda estamos pesquisando sobre o mercado brasileiro e suas oportunidades, mas acreditamos que com o maior grau de automação demandada e pela necessidade de processos com menos resíduos e maior qualidade - tanto dos insumos que entram no processo, como no produto final -, encontraremos nosso espaço dentro deste mercado”, explica Cristobal, da MAHLE Filtroil.

Embora a transesterificação seja o processo mais utilizado, o Governo diz que haverá cada vez mais estímulos para o desenvolvimento tecnológico na área do biodiesel. Consequentemente, mais filtros a serem aplicados nesse processo. A maré é boa, agora é só continuar se atualizando e participar cada vez mais desse nicho que só cresce.

Fonte:

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Falta investimento em pesquisa para viabilizar o biodiesel

04/09/08 - Criado há mais de 30 anos, o Pró-álcool, depois de muita instabilidade, transformou-se em uma das alternativas mais viáveis de produção de energia do mundo. O desenvolvimento tecnológico e a alta produtividade das lavouras de cana-de-açúcar têm garantido ao etanol espaço de destaque nas discussões sobre energias limpas. Da mesma forma, o produto já foi acusado de provocar a crise de alimentos no mundo todo, já que em alguns países o etanol é produzido a partir do milho. Para combater esse preconceito, governo e produtores têm investido na exportação de tecnologia e equipamentos, demonstrando que o etanol de cana-de-açúcar é um combustível que poderá, em algum momento, substituir os derivados de petróleo.

Na esteira desse movimento, está o programa de biodiesel, mas com várias ressalvas. A principal delas é a falta de investimento em pesquisas para se determinar a matéria-prima ideal para produzir o biodiesel. Segundo o presidente executivo da União dos Produtores de Bioenergia, Antonio Cesar Salibe, o governo federal precisa centralizar esses estudos a fim de dar ao biodiesel as mesmas oportunidades que foram dadas ao etanol, tornando-o um produto apto à economia de mercado.

Para falar sobre o tema, Salibe concedeu entrevista ao programa Panorama do Brasil, apresentado por Roberto Müller e que irá ao ar hoje pela TVB. Participam também da entrevista, a diretora de redação do DCI, Márcia Raposo, e Milton Paes, da rádio Nova Brasil FM.

Roberto Müller: É impressão nossa ou parece que o governo brasileiro está patinando na questão do biodiesel? O etanol já está consagrado, mas o biodiesel ainda está sem um rumo certo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando abordou o biodiesel, falou sobre a mamona, agora já ficou claro que a sua utilização é inviável, por ser muito viscosa. Sobrou, basicamente, a soja e o sebo animal... É isso mesmo que está acontecendo?

Antonio Cesar Salibe: O programa do etanol também "patinou" no seu inicio e teve uma série de problemas. O que nós acreditamos é que o governo federal deveria aproveitar a experiência do programa do etanol para não cometer os mesmo erros. Na década de 70, quando foi criado o Pró-álcool, eram produzidos 3.600 litros de etanol por hectare, a produtividade agrícola era de 60 toneladas de cana por hectare e o rendimento industrial era de 60 litros de etanol por tonelada de cana moída. Hoje, graças à tecnologia e aos estudos e pesquisas, são produzimos 7.500 a 8.000 litros de etanol por hectares, um crescimento de 50% tanto da produtividade agrícola quanto da produtividade industrial. Isso foi fruto de muita pesquisa. Para que o biodiesel não demanda outros 30 anos para alcançar alta produtividade, é preciso investir intensamente em pesquisa. Se você perguntar, hoje, qual a melhor oleaginosa usada para produzir biodiesel, eu não tenho certeza da resposta. Nós não temos uma tecnologia pronta para dizer qual é a melhor oleaginosa em termos técnicos, não em termos comerciais. Ainda não se sabe se é soja ou pinhão-manso, que surgiu como um dos candidatos a matéria-prima. No entanto, não há tecnologia desenvolvida para pinhão-manso e, para tanto, levaríamos de três a cinco anos para desenvolvê-la. Acredito que o governo precisaria criar um programa de tecnologia e desenvolvimento para que a gente tivesse um espaço muito mais curto que os 30 anos consumidos pelo etanol. Além disso, é preciso pensar no biodiesel em uma economia de mercado, uma vez que esse produto é muito mais caro que o diesel. Então, o governo precisa criar um programa economicamente viável, que crie vantagens comerciais. Ele não pode ser apenas um programa social, completamente subsidiado pelo governo. Em larga escala quem vai pagar pelo seu custo? É um problema sério.

Milton Paes: Como seria isso?

Antonio Cesar Salibe: Hoje, para se produzir biodiesel, o produtor escolhe a sua matéria-prima e vende o produto final no mercado livre, sendo que o custo foi de R$ 2,80 a R$ 3 reais o litro. Esse produto concorre com o diesel a pouco mais de R$ 1. A exportação torna-se muito difícil. O governo federal criou um selo social que para ser obtido obriga o produtor a comprar um percentual de sua matéria-prima de pequenos produtores e de cooperativas. Se a matéria-prima escolhida por sebo, como fazer? Só há sebo em quantidade suficiente em grandes frigoríficos. No caso da cana-de-açúcar, há cerca uma média de 15% a 20% por ano de área de plantio que precisa ficar em "reforma", ou seja, o solo tem que descansar para se recuperar. Nessa área, poderia ser plantada uma leguminosa utilizada para encorpar o solo e produzir biodiesel. Em toda área nessa situação poderia ser produzido 1 milhão de litros de biodiesel, que é quase tudo o que o governo do país precisa.

Márcia Raposo: Você quer dizer usar a matéria-prima do biodiesel como descanso da terra de outras culturas?

Antonio Cesar Salibe: Exatamente. E sem ocupar mais terra nenhuma brasileira. Só que o usineiro não pode fazer isso porque ele não tem o selo social e não pode entrar no leilão, que paga, normalmente, R$ 42,77. Mas só quem possui o selo social pode participar. Então, o governo precisa permitir que todos participem do leilão. O que poderia ser feito é dar um incentivo a mais para quem tiver o selo como dedução de 10% ou 20% em algum imposto. Eu acho que essa que seria a idéia para viabilizar o biodiesel no Brasil.

Roberto Müller: Já ficou demonstrado para o mundo que essa história de que o etanol produzido por cana-de-açúcar substitui a plantação de alimentos é uma falácia, ao contrário do milho. Esse, sim, encarece o preço do milho e ajuda a fomentar essa crise de alimentos que o mundo está vivendo. No entanto, no caso do biodiesel é mais complicada, já que se a matéria-prima escolhida for a soja, de fato poderemos estar tirando soja da mesa das pessoas. Que alternativas teríamos?

Antonio Cesar Salibe: A gente acredita que o biodiesel tenha que ser produzido de sebo e de pinhão-manso, só que nós não temos uma tecnologia para pinhão-manso, por isso insistimos que o governo teria que ter um programa sério de investimento em pesquisa de tecnologia e desenvolvimento.

Roberto Müller: Tem que usar a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] ou tem que usar um órgão novo?

Antonio Cesar Salibe: Não precisaria criar um órgão novo. A Embrapa poderia fazer isso, já que é uma ótima empresa de pesquisa, com capacidade e excelentes profissionais, só que precisa de recursos financeiros para um programa específico para essa matéria-prima.

Roberto Müller: Não existe isso?

Antonio Cesar Salibe: Eu desconheço. Não vou dizer que não exista.

Roberto Müller: Bom, se o presidente executivo da União dos Produtores de Bioenergia desconhece é porque não tem... [risos]

Antonio Cesar Salibe: Eu acredito que o governo já esteja se preparando para resolver essa questão já que o programa de biodiesel é importante para o presidente da República. Hoje, o mundo está precisando de alimento. Oleaginosas que competem com alimentos seriam problemáticas, mas eu acredito que o governo resolva essa questão.

Roberto Müller: Onde é que cresce pinhão-manso?

Antonio Cesar Salibe: Ele nasce no Brasil inteiro, só que é uma cultura importada e se der alguma praga ou doença, ainda não há tecnologia para combater. Então, precisaria desenvolver uma pesquisa para desvendar toda a cultura e suas variedades. A cana-de-açúcar, por exemplo, possui uma série de variedades, controle biológico através de inimigos naturais, que não agride o meio ambiente. Para o pinhão-manso é necessário toda essa pesquisa. Para a cana-de-açúcar, existem, atualmente, pelo menos, três grande centros de pesquisa intensiva, desenvolvendo novas variedades, estudos de utilização do bagaço para produção de bioeletricidade, entre outros. O pecuarista diz que, do boi, se aproveita tudo menos o berro. Da cana-de-açúcar é a mesma coisa: se aproveita tudo mesmo.

Márcia Raposo: Há um fator muito importante também no comércio de biodiesel que é o monopólio da Petrobras como grande compradora. O DCI tem feito muitas matérias com grandes produtores de biodiesel no país reclamando que estão com os estoques muito altos, que já venderam no leilão, mas que a Petrobras ainda não foi buscar. Enfim, a Petrobrás tem seus planos. Comercialmente, ela agora está envolvida com a maior bacia de petróleo que o planeta já conheceu, localizada na camada pré-sal. O fator comercial do biodiesel também não é um problema?

Antonio Cesar Salibe: Hoje, ainda não é um grande problema porque a Petrobras está pagando a conta do biodiesel. O setor sucroalcooleiro, em um determinado momento, também passou por essa dificuldade, mas quando passamos a ter um custo abaixo do nosso produto final, pudemos entrar em uma economia de mercado. Acredito que vivemos um momento que a Petrobrás ainda é importante, administrando o setor. Mas vai chegar um momento em que estaremos produzindo o biodiesel em um custo abaixo do produto final e que devemos ter economia de mercado como temos com o sucroalcooleiro. Lembrando que ele só se desenvolveu e cresceu quando saiu debaixo das asas do governo.

Roberto Müller: O setor sucroalcooleiro está disposto a investir junto com o governo no fomento à pesquisa?

Antonio Cesar Salibe: Na realidade, são duas histórias um pouco diferentes. O etanol contou com uma estrutura montada para desenvolver o açúcar e o álcool, como resultado de investimentos no estudo da cana-de-açúcar. Já o biodiesel precisa de pesquisas exclusivamente para o seu estudo.

Roberto Müller: Nas pesquisas de ponta em biotecnologia, há a participação de grandes empresas, como a Votorantim e a Odebrecht, em programas de estudo sobre a cana-de-açúcar. Isso se reproduz com o biodiesel?

Antonio Cesar Salibe: Existem, hoje, empresas privadas que produzem biodiesel e fazem pesquisas, mas acreditamos que o governo precisa centralizar os estudos e a divulgação dos resultados para o desenvolvimento do setor como um todo. Tem que se criar um centro nacional de pesquisa.

Roberto Müller: Vamos supor que houvesse uma proposta do governo federal para o setor privado no sentido de desenvolver um trabalho conjunto e cada um entra com uma parte. O setor privado aceitaria uma proposta nesse sentido?

Antonio Cesar Salibe: Precisaríamos avaliar essa proposta, quem entraria com o que, e como nós conduziríamos essa pesquisa. Acho que tudo é viável e passível de ser estudado.

Márcia Raposo: As grandes descobertas da Petrobras na camada pré-sal e os investimentos necessário para a sua exploração não poderão se tornar concorrentes do programa de biodiesel?

Antonio Cesar Salibe: Nós temos de analisar vários fatores. Primeiro, é que estamos discutindo uma energia renovável com uma energia fóssil, uma energia que nós achamos que tem, que tem que desenvolver ainda uma tecnologia para retirar, que demora pra ser retirado. Então, nós estamos discutindo um produto com uma vida útil limitada contra um produto que é renovável. Em segundo lugar, estamos discutindo uma energia poluente com uma energia não-poluente. Em terceiro lugar, estamos discutindo uma energia que vai melhorar a qualidade de vida do mundo contra uma energia que, até hoje, só gerou guerras e competições e uma série de problemas. Então, eu acho que é difícil comparar petróleo com biodiesel ou etanol porque eles vão sempre levar vantagem por serem uma energia renovável e limpa.

Fonte: - Laelya Longo e Julia Aronchi - 25/08

Da Agência

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Carbonômetro

O cálculo que leva ao resultado que aparece no Carbonômetro considera que:

  • 80% da frota nacional de carros flex roda com puro etanol (E100);
  • 20% dos carros flex usam gasolina que, por lei, contém 25% de etanol no Brasil (E25) ;
  • uma taxa de sucateamento da frota de 1% ao ano após o primeiro ano de uso do veículo;
  • a emissão evitada de CO2 considera as seguintes médias anuais:
    - 5,16 toneladas anuais em veículos flex que utilizam E100
    - 1,08 toneladas anuais em veículos flex que utilizam E25

O total que você vê no Carbonômetro, em toneladas de CO2, é o volume de emissões evitadas pela frota brasileira de carros Flex-Fuel desde 2003, quando eles foram lançados no País.

Árvores


O número de árvores se baseia em 3,20 árvores retirando uma tonelada de CO2 da atmosfera ao longo de 20 anos, considerando-se o plantio de árvores nativas da Mata Atlântica plantadas pela ONG SOS Mata Atlântica no estado de São Paulo. A medição foi feita pela SOS Mata Atlântica, com apoio da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) e da consultoria Key Associados.


Fonte: Etanol - Uma atitude inteligente

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Tecnologia inovadora melhora a qualidade do biodiesel

Westfalia e centros de pesquisa como o ITAL investem em tecnologias e estudos para garantir a qualidade do biodiesel e processos de produção mais ecológicos


A GEA Westfalia Separator Brasil está disponibilizando no país uma planta industrial com um novo processo para cisão de borra (sabão), efluente indesejáveis do pré–tratamento de óleos vegetais para produção de biodiesel. No novo método ocorre a cisão contínua de borras, aumentando o rendimento final deste processo. “E ainda, a água ácida, que poderia afetar a qualidade do produto, é decantada em tanques cobertos e percorre um fluxo especial, onde efluentes são neutralizados. Tudo isso antes de ser enviada para o tratamento convencional”, destaca Renato Dorsa, gerente de engenharia da GEA Westfalia Separator Brasil.

O processo de cisão de borra tem por finalidade transformar os sabões - formados durante o processo de neutralização - em ácidos graxos. “Esta tecnologia permite dar um fim mais nobre ao óleo arrastado na borra nos processos de pré-tratamento de óleos vegetais”, afirma Dorsa. Plantas com esse sistema da Westfalia já estão em funcionamento na Europa e Ásia. No Brasil, as plantas com sistemas tradicionais possuem tanques abertos, o que resulta em um processo mais perigoso e poluente. “O processo com centrífugas fechadas e compactas da Westfalia substitui os antigos métodos e é mais ecológico”, diz Dorsa.

Segundo Roseli Ferrari, pesquisadora científica do Centro de Ciência e Qualidade de Alimentos do ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos) de Campinas-SP, além do biodiesel extra que pode ser gerado com esse processo de eliminação total da borra - resíduo que é prejudicial ao meio ambiente -, evita-se os odores desagradáveis que ocorrem nos métodos tradicionais, o que permite que esse tipo de planta possa ser instalada mesmo dentro das cidades.

O ITAL tem investido em pesquisas com o biodiesel, preocupando-se com a satisfação do consumidor final. Todas as plantas do Brasil devem seguir os padrões observados pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biombustíveis), cujo objetivo é proporcionar um biodiesel de qualidade. “Como o país tem diversidade de clima e de matérias-primas, as especificações internas são diferentes, mas devemos nos adaptar cada vez mais para atender a uma demanda de exportação”, ressalta Roseli.

A pesquisadora destaca aspectos importantes na qualidade do biodiesel, como, por exemplo, o fato de os motores diesel serem capazes de usar biodiesel sem adaptações. “Também o teor residual de álcool, glicerina e óleos deve ser o mais baixo possível. O biodiesel é biodegradável e sua estabilidade à oxidação deve ser assegurada. Enfim, todos os agentes, do produtor até as usinas, são responsáveis pela qualidade do biodiesel antes dele chegar ao motor do veículo”, reforça Roseli.

Sobre a GEA Westfalia Separator Brasil.

A GEA Westfalia Separator Brasil pertence ao grupo alemão GEA, líder mundial em equipamentos industriais, cujo faturamento anual gira em torno de 5 bilhões de euros. A empresa oferece soluções de engenharia de projetos e processos para o desenvolvimento e implementação de unidades completas para a produção de biodiesel. Cada uma dessas plantas tem capacidade de produção que pode atingir até 300 mil toneladas por ano. A equipe da GEA Westfalia Separator Brasil, com 35 anos de experiência no processamento de óleos vegetais, é também responsável pelo desenvolvimento e implementação de plantas de elevada confiabilidade para o pré-tratamento de diversas oleaginosas para a produção de biodiesel. A Westfalia do Brasil é reconhecida pela qualidade e agilidade de seus serviços de pós-venda, sendo também uma das fundadoras da UBRABIO (União Brasileira do Biodiesel).

Sobre o Ital

O Instituto de Tecnologia de Alimentos é uma instituição de pesquisa, desenvolvimento e assistência tecnológica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo. Foi fundada em 1969, na cidade de Campinas-SP.


Alessandra de Falco
Assessora de Imprensa
GEA Westfalia Separator Brasil
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19 3579.5466 / 19 9772.0970

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Escândalo da Agrenco

24 Junho 2008

O grupo Agrenco, que abriu seu capital em outubro do ano passado, teve seus principais executivos presos na operação Influenza da Polícia Federal (Executivos de megaexportadora de soja estão entre os presos, Patrícia Cançado , O Estado de São Paulo, 21/06/2008) .

As acusações são de estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica, uso de documentos falsos e lavagem de ativos.

A partir da constatação de que a empresa recolhia ISS em Itajaí, apesar de não operar no porto de Santa Catarina, chamou a atenção e iniciou as investigações.

Num dos golpes, há indícios de que os três sócios da Agrenco simularam compra de grãos desse produtor e pegaram nota fiscal inidônea. “Em vez de pagar a fatura para o produtor, o dinheiro era dado a um laranja, que distribuía os lucros para todos. O laranja, por acaso, é parente do produtor. Ele recebeu algumas dezenas de milhares de dólares para emprestar a conta bancária”, explica o delegado, que pediu anonimato.
Segundo informações do último balanço financeiro da companhia, a Agrenco é responsável por quase 15% da soja exportada pelo Brasil. Caso as investigações comprovem as operações fictícias, apenas uma parte desse volume realmente foi comprada e vendida.
Os sócios também são acusados de trazer dinheiro de suas contas particulares no exterior para o Brasil por meio de contratos fictícios de prestação de serviços de consultoria. Segundo a PF, as empresas eram criadas para esse fim e desfeitas após a distribuição do dinheiro.( Executivos de megaexportadora de soja estão entre os presos, Patrícia Cançado , O Estado de São Paulo, 21/06/2008)

Conforme normas brasileiras, a empresa Agrenco, que é uma empresa com ações na Bovespa, foi considerada vítima pois os três sócios estariam lesando os outros acionistas.

A conseqüência é que no dia anterior o preço das ações caiu quase 50%, o que determinou a suspensão das negociações.

Para manter a saúde aparente da empresa, os sócios teriam forjado documentos, segundo investigação da PF. No começo do ano, a KPMG, responsável pela auditoria da Agrenco, identificou cerca de 60 irregularidades no balanço, que depois teriam sido sanadas, afirma a polícia. Em 2007, o grupo faturou R$ 3,4 bilhões e teve um prejuízo de R$ 123 milhões. Sua dívida supera R$ 1 bilhão.
A contabilidade da Agrenco é naturalmente complexa. O grupo, criado há 16 anos na França por Iafelice, é formado pela Agrenco do Brasil S.A.; pela Terlogs, que opera o Terminal Marítimo de São Francisco do Sul; por empresas de distribuição na Itália, Reino Unido, Cingapura e Ilha da Madeira, em Portugal; pela Agrenco Argentina; pela Agrenco Shipping and Chartering, do ramo de fretes marítimos; pela Finacom (com sede em Malta), de serviços financeiros. Na Noruega, possui ainda 40% do capital da Danofa, uma das principais processadoras e distribuidoras de soja do norte europeu. ( Executivos de megaexportadora de soja estão entre os presos, Patrícia Cançado , O Estado de São Paulo, 21/06/2008)


Em outro texto (PF prende 24 por crime financeiro, Júlio Castro, 21/06/2008, O Estado de São Paulo) a imprensa detalha mais os problemas da empresa:

Segundo a PF, a organização fazia operações cambiais ilegais, ocultava bens, rendas e movimentações financeiras com a participação de “laranjas”, além de operações comerciais simuladas com o uso de documentos falsos e fraudes em licitações. Há indícios de que a quadrilha corrompia servidores públicos de todas as esferas e níveis para alcançar seus objetivos, notadamente nos portos das cidades catarinenses de São Francisco do Sul e de Itajaí.
A PF apurou a existência de fortes indícios de fraudes em licitações promovidas pelo Porto de Itajaí/SC, como ajuste prévio de vencedora, afastamento irregular das demais concorrentes e superfaturamento dos serviços contratados. Além disso, os presos articulavam-se para praticar crimes contra o mercado acionário, ou seja, adquiriam papéis da empresa Agrenco SA, visando ao lucro indevido. A empresa exporta e importa grãos. As penas previstas para os crimes ultrapassam 50 anos de prisão, além de multas.

Como todo bom escândalo, na véspera a negociação dos papeis da empresa foi anormal:

Segundo um analista, a companhia é alvo de desconfiança há alguns dias. O volume médio de negociações, sempre abaixo de R$1 milhão, chegou a R$13 milhões na segunda-feira. A Bovespa pediu esclarecimentos, e a empresa alegou que a oscilação se deveria à convocação de uma assembléia, em 11 de julho, para discutir a emissão de 25 mil novas ações. No mesmo dia, a produtora de equipamentos Hunter do Brasil pediu a falência de uma subsidiária da Agrenco.
(...) O banco Credit Suisse tem participação de 6,89%. Ontem, no Brasil, ele foi o que mais vendeu ações, num total de R$3,2 milhões.
No ano passado, o banco emprestou US$120 milhões à empresa. Em troca, coordenou o lançamento das ações na Bolsa, quando foram captados R$670 milhões. Na época, recebeu US$10 milhões em dinheiro, além de US$30 milhões em comissão. Além disso, ficou com uma participação acionária na empresa.



(PF prende 24 pessoas por lavagem de dinheiro em SP e Santa Catarina, 21/06/2008, O Globo, p. 34, Adriana Baldissarelli*e Juliana Rangel)

Veja também a reportagem no Wall Street Journal que mostra a participação do Credit Suisse

Fonte: Blog Contabilidade Financeira

domingo, 3 de agosto de 2008

O biodiesel e os desafios da inovação

O lançamento do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) foi cercado de esperanças de que ele traria uma nova matriz de produção na área de energia, mais inclusiva do ponto de vista social e menos desgastante do ponto de vista ambiental. Mas não é bem assim.

Embora as origens do biodiesel remontem à invenção do motor com ignição por compressão, desenvolvido pelo engenheiro alemão Rudolf Christian Karl Diesel no final do século XIX, e a primeira patente tenha sido atribuída ao brasileiro Expedito Parente nos anos 1980, sua incorporação efetiva à agenda das políticas enérgicas brasileiras só ocorreu no final da década de 1990 e início dos anos 2000. Entre outras iniciativas que marcaram o redescobrimento do potencial do biodiesel destaca-se o Programa Brasileiro de Biocombustíveis (Probiodiesel) lançado em 2002 e coordenado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Os principais argumentos avançados na época para a implementação do programa eram: 1) a diminuição da dependência dos derivados do petróleo; 2) a criação de novos mercados para oleaginosas; 3) o crescimento da demanda global por combustíveis alternativos e 4) a redução das emissões de gás carbônico.

No entanto, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência no final de 2002, o Probiodiesel acabou reformulado para incorporar a questão da inclusão social, um dos pilares da estratégia do governo “Lula”. Esse aspecto era, em particular, associado à possibilidade de usar o óleo de mamona na produção de biodiesel, incentivando a geração de renda e emprego no Nordeste, já que a matéria-prima era apropriada às condições socioambientais da região. Para institucionalizar o programa, foi estabelecida, por meio de um decreto em dezembro de 2003, a Comissão Executiva Interministerial encarregada da implantação das ações direcionadas à produção e uso de biodiesel como fonte alternativa de energia. Durante o ano de 2004, foram realizados vários estudos técnicos que comprovaram a viabilidade do biodiesel, apoiando-se nas seguintes decisões: em setembro de 2004, o governo editou a Medida Provisória 214 definindo o biodiesel e delegando competências à Agência Nacional do Petróleo para a sua regulação; 2) no final de novembro, foi aprovado um programa de apoio financeiro aos investimentos em biodiesel pelo BNDES e 3) no dia 6 de dezembro de 2004, foi oficialmente lançado pelo presidente da República o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). Ao mesmo tempo, instituiu-se o Selo Combustível Social, concedido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) aos produtores de biodiesel que adquirissem matéria-prima dos agricultores familiares e lhes assegurassem assistência e capacitação técnica. Para incentivar a efetivação do selo, o PNPB institucionalizou uma redução das alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, com coeficientes diferenciados em função da matéria-prima (mamona, soja, dendê etc.), da região de produção e do tipo de fornecedor (agricultura familiar ou agronegócio). (Veja a Legislação do Biodiesel Brasileiro aqui)

Uma vez sancionada a Lei do Biodiesel, iniciou-se a fase de implementação do programa. Apesar das expectativas suscitadas pelo seu caráter inovador, havia um alto grau de incerteza quanto ao andamento efetivo dessa fase. Em primeiro lugar, não era trivial a incorporação numa mesma esfera de ação pública de atores sociais tão distantes do ponto de vista dos interesses, valores, rotinas e cultura organizacional, como, por exemplo, a Petrobras e os agricultores familiares, ainda que o programa tenha proporcionado incentivos para tornar essa articulação efetiva.

Em segundo lugar, os problemas encontrados nos suprimentos de óleo de mamona causavam incertezas. Procurando solucionar esses problemas, representantes do MDA passaram a intensificar seu trabalho junto com sindicatos e movimentos sociais no intuito de dar maiores informações sobre as regras contratuais, os padrões de produção industriais e as oportunidades de renda e trabalho proporcionadas pelo PNPB. Esperava-se que essas organizações pudessem servir como agentes de transmissão de informações e conhecimentos junto aos produtores e estabelecer um grau de confiança sem o qual a continuidade do projeto poderia estar comprometida. Além disso, o MDA criou uma linha de financiamento do Pronaf para estimular a produção de mamona. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o MCT, a partir da mobilização dos recursos proporcionados pela rede brasileira de biodiesel, intensificaram seu trabalho de mapeamento das rotas tecnológicas viáveis, buscando sobretudo opções para diversificar as fontes de matéria-prima. Esses esforços tiveram o mérito de mostrar que havia várias soluções possíveis, como o dendê e o girassol, e até mesmo inesperadas como o pinhão manso. A Petrobras, do seu lado, passou a incentivar pesquisas para elevar a produtividade e descobrir novos usos para a “torta” de mamona objetivando elevar a lucratividade do negócio, embora cogitasse mais fortemente o uso de outras oleaginosas para garantir o suprimento.

As diferentes iniciativas visavam garantir credibilidade e viabilidade ao PNPB. No entanto, para muitos, sejam eles críticos ou torcedores do programa, o primeiro teste realmente significativo era vinculado aos resultados dos leilões públicos de venda de biodiesel, promovidos pela ANP, cujo desenho tinha sido idealizado para servir de matriz institucional inicial ao desenvolvimento do mercado e da indústria de biodiesel no Brasil. No primeiro leilão foram adquiridos 70.000 m3 de biodiesel, sendo 54,3% deste à base de óleo de mamona e vendido pela Brasil Biodiesel. As demais oleaginosas foram soja (38,6%) e dendê (7,1%). Os leilões posteriores, no entanto, revelaram uma série de problemas, minando parte do entusiasmo inicial e mostrando a necessidade de realizar ajustes institucionais e organizacionais para manter vivas as aspirações originais do PNPB.

O volume de biodiesel negociado nos leilões, por exemplo, não tem apresentado crescimento regular e a entrega da produção negociada encontra-se incerta. Segundo a ANP, entre janeiro e junho de 2007 foram produzidos 122 milhões de litros de biodiesel. Ainda que represente uma expansão da oferta, o volume é 30% inferior ao que deveria ser entregue até junho de 2007, de acordo com os contratos firmados no segundo leilão de biodiesel. Além disso, quase todas as empresas produtoras de biodiesel estão com sua produção abaixo do que foi prometido e parte do volume produzido não está em conformidade com as normas de qualidade estabelecida pela ANP, obrigando sua devolução pelas distribuidoras.

Em teoria, numa situação em que os preços do biodiesel compensam tanto os custos de produção quanto aqueles derivados dos problemas de coordenação entre os atores envolvidos, os leilões da ANP representariam uma opção atraente para as empresas e as expectativas de lucros incentivariam maior disciplina entre os agentes da cadeia. No entanto, os preços negociados nos leilões mostraram trajetória de queda enquanto os preços internacionais das principais matérias-primas, a soja em particular, estão subindo. Por outro lado, os problemas organizativos da cadeia de biodiesel – como a assistência técnica deficiente, logística inadequada, falta de fiscalização, mercado informal crescente, insegurança contratual e conflitos com governos estaduais, etc. – dificultam a coordenação entre os atores envolvidos no programa.

Esses problemas e suas possíveis conseqüências sobre a credibilidade e legitimidade do PNPB estão levando o governo e as demais partes interessadas no desenvolvimento do biodiesel a rever seus objetivos, critérios e modos de operar. Uma primeira linha de ação é a reafirmação do compromisso do governo federal com o desenvolvimento do biodiesel como parte da matriz energética de longo prazo. Em recentes viagens ao exterior, por exemplo, o presidente destacou que o biodiesel brasileiro é uma “semente que certamente vai dar muito fruto”.

A busca da maior integração entre os órgãos públicos, assim como entre os diversos atores da cadeia, representa um outro conjunto de ação relacionado com os ajustes necessários para manter o PNPB operacional. Uma iniciativa nessa direção foi empreendida para reunir, em Brasília, no dia 13 de junho de 2007, representantes da recém-criada União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio) e o ministro do MDA, Guilherme Cassel. Para o governo, a criação da entidade é um elemento que pode proporcionar maior colaboração e facilitar a comunicação com os produtores de biodiesel. Essa busca por maior integração organizacional marcou, também a II Reunião do Selo Combustível Social que ocorreu em Brasília e reuniu representantes das empresas produtoras de biodiesel e da Petrobras, do Governo Federal, das instituições de apoio ao PNPB, como agentes financeiros e instituições de pesquisa, dos movimentos sociais e sindicais, das equipes técnicas e de supervisão dos Projetos Pólos Centro-sul e Nordeste e da equipe da Secretaria de Agricultura Familiar do MDA.

A esses esforços organizativos soma-se uma revisão do mix de matéria-prima capaz de sustentar o desenvolvimento do programa. Com efeito, visto que os preços dos dois principais componentes do biodiesel, soja e mamona, colocam em xeque a viabilidade do programa, seja porque o preço da soja aumenta, seja em função do dos preços pagos pelas indústrias químicas e cosméticas pelo óleo de mamona, o alargamento da oferta se torna uma questão estratégica. Não por acaso, vêm se multiplicando estudos sobre o potencial energético do pinhão manso ou do dendê, considerada a matéria-prima mais viável para a produção de biodiesel, com rendimento de até 6 mil litros por hectare.

Do ponto de vista da dinâmica institucional, o lançamento do PNPB é interessante por vários motivos. Em primeiro lugar, destaca-se o grande número de organizações e instituições envolvidas na formulação do programa. De fato, além de 13 ministérios e várias estatais, participaram direta e indiretamente um conjunto heterogêneo de deputados e senadores, diversos institutos de pesquisa e centros tecnológicos, algumas associações empresariais e sindicatos. Essa formatação organizacional e institucional aponta para a complexidade dos valores e interesses em jogo na formulação de políticas públicas, tornando a identificação das causas e efeitos do processo de decisão um exercício bastante difícil. No mesmo sentido, a multiplicidade dos modos de coordenação, tanto em níveis interindividuais como interorganizacionais, implica o reconhecimento da diversidade de lógicas de ação, às quais recorrem os policy makers, e da complexidade das formas de governança da ação pública. Em segundo lugar, o PNPB, com seu foco na inclusão social, sua expectativa de crescentemente substituir as importações de diesel mineral e sua ambição de proporcionar um novo modelo de gestão do desenvolvimento agrário e energético, representa uma iniciativa corajosa e inovadora. No entanto, como toda inovação que modifica os parâmetros institucionais e organizacionais da implementação das políticas públicas, tradicionalmente setoriais, o PNPB requer ajustes, comprometimento e aprendizagem por parte dos atores envolvidos. Por fim, cabe assinalar que uma melhor compreensão desses processos demanda novas pesquisas e análises no assunto.

Georges Flexor é professor adjunto do Instituto Multidisciplinar IM/UFRRJ e pesquisador do Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura OPPA/CPDA.

Fonte:

Do Blog ISES do Brasil

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A rapadura finalmente é nossa!!!!!

Brasil vence briga com Alemanha por registro da rapadura

25/07/08 - Não foi mole, muito menos doce, a briga pela rapadura. O nome da guloseima tipicamente brasileira havia sido registrado por uma empresa estrangeira, há 19 anos, na Alemanha e nos Estados Unidos, como marca de um açúcar mascavo, que nada mais é que rapadura triturada. Depois que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Ceará denunciou ao Itamaraty o registro indevido do nome tupiniquim lá fora, teve início uma longa negociação que terminou há poucos dias. A firma alemã Rapunzel Naturkost, detentora da marca nos dois países, aceitou a proposta brasileira de registrar o nome composto Rapadura Rapunzel para o produto.

Apesar de não ser novidade, a Biopirataria tem aumentado muito nos utimos tempos. O país recordista em registrar nomes brasileiros como marcas é o Japão.

Em maio passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto designando o cupuaçu como fruta nacional. Mesma coisa fez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com a cachaça, estipulando os critérios para a aguardente de cana.

Diz o decreto que “cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de 38% a 48% em volume a 20 graus Celsius e com características sensoriais peculiares”. Esse tipo de determinação, segundo o advogado Pedro Szajnferber de Franco Carneiro, diretor da Associação Paulista de Propriedade Intelectual, é importante para proteger a marca internamente. “Isso evita que alguém no Brasil decida registrar o nome cachaça para comercializar a bebida”, disse.

Para evitar mais problemas com registros de nomes genéricos brasileiros no exterior, um grupo interministerial elaborou uma lista com cerca de 5 mil nomes típicos verde-amarelos. Constam da relação o umbu, cajá, maracujá, pinhão. A lista foi repassada à Organização Mundial de Propriedade Intelectual, que mantém contato com escritórios de registros de marcas em todo o mundo.

País também recebe reclamações - Engana-se, porém, quem acha que só os nomes brasileiros são registrados indevidamente lá fora. Por aqui também recaem reclamações de outros países, que não aceitam o uso de determinadas marcas. Um dos exemplos mais antigos que ainda está na Justiça é a famosa cachaça Havana, fabricada desde 1943 em Salinas, Minas Gerais.

O imbróglio começou quando a Havana Club Holding — controlada pela multinacional francesa Pernod Ricard, que comercializa o rum Havana Club no Brasil — teve a marca registrada pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) e questionou, em 2001, a utilização do nome por Anísio Santiago, então dono da fábrica artesanal da cachaça Havana.

Os rótulos tiveram de ser substituídos. Passaram a levar o nome do dono, que morreu em 2002, perto de completar 91 anos. Familiares contam que o velho Anísio ficou tão desgostoso que mandou queimar todos os selos que continham a palavra Havana, nome da simplória propriedade rural onde a cachaça era fabricada. Em 2005, porém, a Justiça concedeu uma liminar permitindo que a família use o termo Havana.

“Voltamos a colocar os rótulos, mas em poucas garrafas. A maior parte sai com o selo Anísio Santiago, que já está firmado no mercado. Temos receio de voltar a usar somente Havana e, ao final do processo, perdermos o direito da marca”, explica Roberto Santiago, um dos sete herdeiros do inventor da cachaça.

A diferença de preços entre uma garrafa selada com um rótulo Havana e uma com Anísio Santiago mostra bem o peso de determinadas marcas. Na fábrica, a Havana sai a R$ 200, enquanto a Anísio fica em R$ 100. “A cachaça é exatamente a mesma, só por causa do selo muda tanto de valor. Tem gente que liga para isso”, diz Santiago.

Fonte: Paraiba.com

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Rodada Doha: Entenda o que está em jogo em Genebra

A partir desta segunda-feira, ministros de cerca de 35 países estão reunidos em Genebra, na Suíça, para dar continuidade às negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O encontro em Genebra deverá se estender por toda a semana e é considerado a última chance de se obter um acordo de liberalização do comércio mundial, pelo menos neste ano.

A Rodada Doha foi lançada há sete anos, mas está paralisada devido a divergências sobre o nível de abertura em setores de interesse de países ricos e pobres.

Os países em desenvolvimento querem maior abertura no setor agrícola das nações desenvolvidas, incluindo a redução ou o fim de subsídios. O bloco dos países desenvolvidos pressiona por maior abertura nos setores de indústria e serviços.

Entenda o que está em jogo nas negociações.

Há quanto tempo as negociações da Rodada Doha vêm sendo realizadas?

A Rodada Doha da OMC foi lançada em novembro de 2001, na capital do Qatar, com o objetivo de obter maior liberalização do comércio mundial.

Quase sete anos depois, os países envolvidos nas discussões ainda não conseguiram chegar a um acordo.

Até agora, as discussões têm girado principalmente em torno do tamanho dos cortes nos subsídios à agricultura por parte dos países desenvolvidos e no quanto o comércio de serviços pode ser liberalizado.

Por que as negociações foram paralisadas?

Um dos pontos mais polêmicos é o quanto os países ricos aceitam remover suas barreiras a exportações agrícolas dos países pobres.

Também há divergências sobre o quanto as nações em desenvolvimento aceitam abrir seus mercados para bens manufaturados e serviços.

Os países em desenvolvimento criticam o que consideram políticas protecionistas, principalmente por parte dos Estados Unidos e da União Européia.

Eles querem provas concretas de que os países desenvolvidos estão dispostos a abrir seus mercados com cortes expressivos em suas tarifas de importação e nos subsídios à agricultura.

O principal problema é que o livre comércio em agricultura tem se mostrado bem mais difícil de ser negociado do que em bens manufaturados.

Em que ponto está a negociação?

Durante esta semana, os representantes dos países envolvidos deverão ter reuniões dia e noite para tentar aprovar uma proposta de acordo em agricultura e produtos não-agrícolas.

Há alguns sinais de progresso. A União Européia disse estar preparada para reduzir suas tarifas agrícolas em 60%, o que significa um avanço em relação a propostas anteriores.

No entanto, os Estados Unidos afirmam que só irão reduzir seus subsídios agrícolas se os países emergentes abrirem seus mercados, cortando tarifas industriais.

Qualquer proposta de acordo que seja decidida em Genebra terá que receber o aval de todos os 152 membros da OMC antes de ser aprovada.

Há uma corrida contra o relógio para se chegar a um acordo. Os envolvidos nas negociações querem fechar um acordo antes que o novo presidente americano assuma o poder, em 2009.

O novo presidente dos Estados Unidos pode querer fazer mudanças na política comercial do país, e qualquer acordo sem a participação da maior economia do mundo seria bastante enfraquecido - ou mesmo inútil, segundo analistas.

Os atuais problemas na economia mundial afetam as negociações?

A saúde da economia global se deteriorou desde a última reunião para discutir a Rodada Doha, com desaceleração no crescimento nos países desenvolvidos e aumentos do custo de vida.

A alta mundial dos preços dos alimentos, que dobraram desde o ano passado, teve efeito maior sobre os países mais pobres, onde uma proporção maior da renda familiar é gasta em comida.

Segundo analistas, isso levou a um aumento do protecionismo nos países exportadores de alimentos.

Os defensores de um acordo afirmam que ele iria ajudar a reduzir a pobreza e a criar empregos nos países em desenvolvimento, enquanto os países ricos podem se beneficiar se conseguirem exportar mais bens e serviços.

Calcula-se que um acordo possa injetar US$ 100 bilhões por ano na economia mundial.

Quais seriam as conseqüências de um fracasso nas negociações?

O comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, afirma que há 50% de chance de sucesso. O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, é mais otimista.

Um fracasso nas negociações significaria o fim da Rodada Doha, já que as eleições americanas devem dominar a agenda política mundial a partir de agora.

Isso enfraqueceria a realização de acordos multilaterais, já que os países negociariam acordos comerciais individuais entre si, o que colocaria os países menores em desvantagem.

Os maiores países em desenvolvimento, como Brasil e Índia, também perderiam com o fracasso nas negociações, porque precisam de mercados abertos para suas crescentes exportações.

No entanto, algumas organizações não-governamentais (ONGs) afirmam que é melhor que não haja nenhum acordo do que um acordo que seja desfavorável aos países mais pobres.

Para a OMC, o fracasso em obter um acordo depois de sete anos de negociações significaria o maior revés de sua história.

Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Fontes Diversas

As fontes consultadas estão distribuídas pelo texto em links que apontam para as mesmas. Fora isso, também são feitas adaptações pelo Autor do Blogpara melhor entendimento da matéria expressando, também, a sua opinião pessoal sobre o assunto.

A farsa do biocombustível da Brasil Ecodiesel no Piauí

Em março de 2004, quando o presidente Luís Inácio Lula da Silva anunciou à nação brasileira, direto da Fazenda Santa Clara, no município de Canto do Buriti, a 400 quilômetros de Teresina, que o Brasil estava dando o primeiro passo para a substituição dos combustíveis fósseis por um combustível limpo, o biocombustível, produzido a partir da mamona, pela empresa Brasil Ecodiesel, talvez não imaginasse que, por trás da encenação, havia uma série de irregularidades.

Quatro anos depois do circo armado para o espetáculo governamental, a cortina veio abaixo e revelou uma realidade onde os principais protagonistas dessa história, os trabalhadores rurais, se consideram usados e enganados pela Brasil Ecodiesel, “Viramos refém dessa empresa", disse o trabalhador rural F.R. que autorizou somente a publicação de suas iniciais.

Ele se referia à dependência financeira e às más condições de trabalho que as mais de 600 famílias contratadas pelo projeto têm para com a Brasil Ecodiesel desde que assinaram o contrato, no início do projeto. A cada família foram destinados sete hectares, cinco para o plantio de mamona e dois para feijão. Do total da produção da mamona 30% é para a empresa e os 70% que sobram é destinado a cobrir o adiantamento de safra que atualmente é de R$ 160 reais que recebem por mês. O valor correspondente a três mil quilos de mamona por safra. Dessa maneira, não há como o trabalhador obter lucro, uma vez que para cobrir os custos da produção, teria que produzir 4.500 quilos nos cinco hectares. Ocorre que por uma série de problemas de ordem técnicas relacionadas à baixa fertilidade do solo, qualidade da semente, entre outros, no máximo estão conseguindo produzir 300 quilos por hectares. Em algumas áreas, a colheita não passa de 100 quilos por hectares.

Quanto ao feijão, cada família é obrigada a destinar 30% do que produz para a empresa. Ainda como parte do contrato, existe a entrega de uma cesta básica no valor de R$ 100 reais. Segundo o colono, Neto Hipólito, a cesta básica repassada não passa do valor de R$ 30 reais e, além de pífia, ainda atrasa quase todos os meses.

Estas irregularidades têm criado uma insatisfação generalizada na fazenda. Muitos já abandonaram o projeto porque temem que, mais cedo ou mais tarde, sejam obrigados a saírem da área, e, para piorar, ainda endividados. Mesmo a Brasil Ecodiesel acumulando prejuízos com o projeto de biocombustível, na unidade de produção do biocombustível, localizada em Floriano, a 240 quilômetros da capital, a empresa assegura que produz 40 mil litros por dia.

O que se questiona é: de onde está vindo à matéria prima?

Pelos cálculos de Neto Hipólito, a fazenda tem uma despesa mensal de RS 500 mil. "A gente não sabe de onde vem esse dinheiro, se vem do governo ou da própria empresa, aliás, por aqui ninguém sabe nada sobre esse projeto, se existe um dono e quem é ele. A gente só vê os encarregados, que por sinal estão sempre mudando. Também continuam depositando os R$ 160 reais da parceria", relata.

Para se ter uma idéia da estranheza do projeto, por enquanto, o plantio de mamona da próxima safra, que deveria ter iniciado em outubro, até agora não aconteceu. "Começamos a plantar dai veio uma praga de lagarta e destruiu tudo, agora não sabemos quando vai recomeçar", contou um dos parceiros do projeto, o trabalhador rural Pedro Cosme da Silva, 34 anos.

Cosme disse ainda que pelo andar da carruagem a empresa não tem pressa, pois dos oito tratores ali existentes cinco foram levados para uma outra fazenda, que dizem ser da mesma empresa. "A preocupação é que ocorra o mesmo que aconteceu na safra passada quando o plantio foi feito fora de hora, acarretando uma produção mínima", disse.

Trabalho Infantil é de comover qualquer insensível

Nas 20 células, denominação dada pela Brasil Ecodiesel para as áreas onde foram construídas 35 casas, a insegurança e insatisfação é a mesma. Famílias se queixam de estarem passando necessidades. Para completar a renda muitas delas colocam as crianças para tapar buracos na BR-324 e ganharem trocados dos motoristas. Durante nossa passagem pelas proximidades das células, encontramos inúmeras crianças com idade entre seis a treze anos, labutando com uma enxada preenchendo infinidades de buracos no que resta de asfalto. Uma dela, T.C., seis anos, comove até aos mais insensíveis devido a magreza e pele muito clara. A criança passa o dia inteiro exposta ao sol e o seu rosto descascado e tomado por sardas é a prova do sofrimento que vimos também através de seus olhinhos infantis. Segundo ela, logo cedo tem que ir para a estrada conseguir uns trocados que são entregues a mãe para ajudar nas despesas da casa.

Um pouco mais adiante nos deparamos com os irmãos D.P., 10 anos, e A.P., nove anos. Eles contaram que passam o dia inteiro tapando buracos e ganham até 20 reais ao dia. "Às vezes a gente só consegue R$ 10 ou menos que isso. O bom é que mesmo sendo pouco a gente sempre ganha", contou D.P., um menino que se mostrou bem educado e inteligente. Ele disse também que com o dinheiro que ganham ajuda a comprar o que comer. "Nossos pais não queriam isso pra gente, mais é o jeito vir pra estrada se não a gente passa fome", completou. Quis saber como fazem para se alimentar e tomar água e D.P. contou que um outro irmão menor leva comida e água.

Já duas adolescentes, com idade entre 13 e 14 anos, que se encontravam na mesma situação resistiram conversar com nossa equipe. Depois de muita insistência as garotas revelaram que pedem dinheiro para comprar roupas. Sobre o perigo de serem molestadas por motoristas inescrupulosos, elas não responderam mais demonstram pelo comportamento que o perigo é uma constante. Já em conversa com os adultos, soubemos da ocorrência de prostituição infantil nas imediações da fazenda.

Produção de Carvão

A área total do projeto para produção de mamona é de 40 mil hectares. Desse total, somente três mil já deveriam ser utilizados para o plantio da monocultura, mas, todo o restante já foi praticamente desmatado para a produção de carvão vegetal. No interior da fazenda estão instalados cinco grandes fornos industriais, os mais modernos que existem e que são controlados por computadores.

Os homens que localizamos ensacando carvão próximo às fornalhas nada sabiam informar sobre a produção. Segundo eles, atualmente a lenha retirada da mata nativa está sendo levada para a Fazenda Canto do Buriti, aonde hoje vem sendo produzido carvão. Eles disseram ainda que os encarregados falaram que a atividade vai retornar em breve. Já o superintendente do Ibama no Piauí, Romildo Mafra, disse que apesar dos fornos, a fazenda Santa Clara não poderião estar produzindo carvão. "Eles não têm o DOF-Documento de Origem Florestal, portanto, não podem fazer carvão", afirmou.

Fonte:

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Matérias públicadas em meus outros Blogs

Aqui você pode encontrar as matérias públicadas nos outros Blogs de minha autoria, separados por periódos e em ordem alfabetica.

Periodo: 29 de junho a 06 de julho de 2008

A África é Aqui!
A CULTURA DO PINHÃO MANSO - Jatropha curcas
A Energia limpa não pode se contrapor à busca de alternativas
Álcool usa mais de 60% da produção brasileira de Cana
Algas contra a crise alimentar mundial
Arroz para Biodiesel
Artigos sobre Etanol Celulósico
Assobiar e chupar cana
Banco Mundial culpa etanol Americano pela alta nos preços dos alimentos
Biocombustíveis X Alimento uma visão
Biodiesel de óleo de Camelina sativa
Biodiesel de Óleo de Tungue
Biodiesel feito de Cana-de-Açúcar
Brasil: Celeiro do mundo
Crise americana pode levar a suspensão de tarifa do álcool
Dados do Setor (CanaOeste)
EAF (Machado/MG)
"Economist" defende fim da tarifa dos EUA ao etanol do Brasil
Embrapa apresenta opção para reduzir abertura de novas áreas na Amazônia legal
Energia gerada da cana-de-açúcar mo Brasil
Energia: oportunidade e ameaça para o Brasil
Esquimós processam EUA por mudanças no clima
Exportação de álcool sai do papel e Petrobras investe
Frutas tropicais brasileiras
Governo na contramão do Etanol
Ibama autua usinas de Pernambuco sem licença
Japão vai aumentar compra de etanol brasileiro
Jatropha Curcas (physic nut, pinhão manso, tempate) Jatropha curcas (físico porca, Pinhão manso, tempatan)
Justiça derruba lei que limita área de cana em Rio Verde/Goiás
Lei do biocombustível da UE pode conter "armadilha ecológica" para Etanol do Brasil
Maior produção de biomassa com plantas transgênicas
Materias-Primas para a fabricação de Biodiesel, no Brasil e no Mundo
Multinacional produzirá etanol de algas e gramíneas do EUA
Normas ABNT para biodiesel
Óleo de Murumuru para fabricar Biodiesel
Óleo de Palma
Óleo vegetal X Combustível de origem biológica
Opções de Oleaginosas para o Biodiesel no Brasil
Palma
Petrobras está otimista com a descoberta de petróleo e com os biocombustíveis
Pinhão Manso - Jatropha curcas L.
Pinhão-Manso (Jatropha curcas L): descrição da planta
Pinhão-manso e o Biodiesel
Pinhão-Manso, a planta
Resumo do Jatropha World Congress
TECA (Tectona grandis)
Trangênicos: Mentira Ideológica
Tungue
Tungue: A Planta
Uso de biocombustível na UE é ainda motivo de controvérsia
Vanguarda Brasil (Nova Mutum/MT)
Venezuela e Cuba têm interesse no modelo de produção brasileira de etanol de cana-de-açúcar

Periodo: 12 a 28 de junho de 2008

”Economist” defende fim da tarifa dos EUA ao etanol do Brasil
Biocombustíveis de 2ª geração: O Brasil corre o risco de ficar para trás
Biocombustíveis trocam um problema por outro
Biopirataria: A quem pertence o DNA?
Brasil vai fornecer etanol para a Suécia
Etanol Celulósico: a procura do Microbio salvador Etanol padronizado
Etanol: Barack Obama e John McCain falam sobre relações com o Brasil
Etanol: Relação Custos X Benefícios
Le Monde diplomatique e os Biocombustíveis
Maior companhia aérea japonesa prepara vôo com biocombustíveis
Matérias sobre Etanol Celulósico
Metanol - Informações gerais
O porquê de Obama defender o Etanol de milho
Ouro verde em um arbusto
Produtores norte-americanos de etanol recusam rótulo de vilões
Shell na cana



Dia 11 de junho de 2008

Cana: Safra recorde
Biopirataria
EUA aposta no Etanol de 2ª geração